Pequeno trabalho apresentado ao professor José Leite Júnior (UFC), no período 2009.1 (disciplina: Lit. Portuguesa IV).
Uma análise dos trechos de O DELFIM, presente em A literatura portuguesa através dos textos, de Massaud Moisés.
“Alguém ressona. Não no infinito, não num inocente telheiro ao relento, mas no quarto aqui ao lado: um caçador.”
A pequena análise aqui presente refere-se somente aos trechos de O Delfim encontrados em A literatura portuguesa através dos textos, de Massaud Moisés. Deixo claro meu desconhecimento do livro integral de José Cardoso Pires.
Para analisar o texto de maneira a compreender forma, conteúdo e ideologia, tentarei, se possível, dividir um estrato do outro, visto que o mais comum é que todos estejam relacionados entre si intimamente.
Pois bem, formalmente se poderia supor, ou sentir, após uma primeira leitura, descuidada e talvez desinteressada, que o texto não é mais que um exercício de escrita ou uma história contada ao vivo. Porém, veja-se bem, o foco narrativo é em primeira pessoa e tal fato poderia sozinho explicar o fluxo da linguagem, o que é de certo realista. Não obstante, dir-se-ia também que sua escrita é fácil. Talvez pela leitura ser fluida, tal sensação se faça num leitor primário, mas essa fluidez aproximando-se da oralidade acaba por tornar a literariedade ainda mais forte. Explico, a oralidade é a mão da literatura, e os efeitos por ela proporcionados podem ser ricos. Não estou dizendo que O Delfim foi feito de primeira escrita, nem pretendo realizar suposições de como o autor construiu seu texto – ou estaria enveredando por caminhos inapropriados e fora do foco desta análise. Contudo, a riqueza da fluidez oral é óbvia e se faz visível, por exemplo, nas ambiguidades e nas aparentes suspensões da “contação” realizada pelo narrador. Sem falar da constante recorrência a parênteses, como que para explicar algo já dito ou acrescentar uma informação que já deveria ou poderia ter sido dada. O que de certo promove bem a fala de uma personagem que “conversa” com o leitor. Interessante é que a fala das personagens ocorre por meio da fala do protagonista narrador, o que não nos dá garantias de veracidade ou exatidão – por certo isto não nos é importante, visto que é a única versão que temos e por isso a verdadeira. Entretanto, essas falas se realizam por vezes como uma relembrança do narrador e vão surgir nos momentos em que ele vê como propícios – ou propiciados por ele, o controlador da exposição dos fatos. Não podemos deixar de observar certo teor jornalístico, visto que se trata de um relato sobre um caso polêmico e enigmático.
Não obstante, não podendo entrar no plano do conteúdo apartando-o da forma, vejamos alguns casos interessantes (e aqui também adentramos o aspecto ideológico) do segundo excerto apresentado no livro de Massaud Moisés, trecho não lido em sala de aula. Nele, o narrador disserta sobre cães, mas de uma ótica inusitada.
Uma das frases iniciais do trecho tem uma função aparente, a de preparar o leitor: “‘Os cães são a memória dos donos’”. Certamente essa não é uma frase original, mas antes um clichê. Porém, ela causa também um efeito de expectativa. Afinal, o que ele pretende ao dizer isso? Veremos que a pretensão é bem maior do que a da frase em si.
À medida que se vai tecendo a observação sobre os animais, a relação entre os cães e seus donos vai progredindo metonimicamente, de modo que chega a pontos onde um se faz saber no outro. O narrador principia sua descrição expondo as características de afetividade do cão para com seu dono e mostra em princípio que o animal é a memória por fazer lembrar por suas ações seu dono, no caso, falecido. E à sua exposição sobre a afetividade canina ele finaliza: “Aprendei, crianças do meu país.” Como quem zombasse da inocência.
Daí então começa a comparar os cães com seus donos e podemos ver que, mais do que isso, o que ele descreve não são os animais, mas os homens, sendo aqueles símbolos animalescos destes. (“Tal senhor, tal cão”) Os animais refletindo até mesmo as características físicas e de personalidade de seus donos, como bem demonstra o parágrafo que descreve o perdigueiro do Batedor e, por extensão, este mesmo – e enfatiza o comportamento do cachorro, “um animal sem vaidades que tinha nos olhos a fome e o receio dos humildes”, “Certo com o Batedor, ligado a ele”. Realmente ligado a ele, podemos pensar, uma parte, uma extensão dele. Mas a observação analítica do narrador e a relação metonímica entre homem e animal não se limitam apenas ao já dito, mas antes de tudo isso é somente algo preparatório para o golpe maior que o narrador desferirá no trecho em apreço.
De forma muito inteligente ele se utiliza de figuras de animais para discorrer sobre a questão (característica do neorrealismo) as diferenças de classe, realizando assim uma crítica que, se não fosse por ser tão explícita, seria alegórica. No entanto, mesmo não chegando a ser alegórica, se aproxima da fábula, pois os animais tomam para si os aspectos humanos. Veja-se esta passagem: “[...] o que intriga é o instinto de classe dos cães das casas mais abastadas, a maneira como escorraçam o pobre e como emparceiram com o rico, ainda que o não conheçam”. Através do comportamento canino, sendo este livre de convenções sociais, éticas, diplomáticas, o autor revela a verdadeira condição das personagens às quais aqueles cães estão ligados. (“os cães são a assinatura do amo, de quem imitam a autoridade e os vícios”).
Daí a sutil descrição da saída de Tomás Manuel da Palma Bravo da cidade:
Até entre os cachorros a lei geral é simples, acompanhando-se ou repelindo-se conforme a autoridade de que vêm dotados, porque todos são portadores dos cheiros da fome ou da abundância dos patrões. Razão tinha o Engenheiro [Tomás Manuel] em desconfiar de quem não gostasse dos cães dele.
Como dito, por metonímia Engenheiro e cães se ligam, assim pode-se dizer que a desconfiança também lhe atinge. Exemplo ainda maior desta constantemente referida ligação entre homem e cão é a crença de alguns de que o “cão-maneta” que aparece próximo à lagoa (outro elemento forte na história) é o fantasma de Domingos, que fazia parte do triângulo amoroso que provoca o tema do romance.
Ainda utilizando-se da metáfora dos cães, o narrador afirma:
Cães aqui são lobos domésticos, mais nada; afeto, servidão, não é com eles. O afeto vem nas cartilhas de infância que o cauteleiro mal teve a honra de soletrar, para muita infelicidade sua, e nas quais não têm cabimento um Lorde ou uma Maruja que são policias-alemães e não cães de cartilha.
Aqui se percebe coisa interessante: a metáfora do afeto como cartilha, indicando o afeto como algo que se aprende, ou, melhor ainda, como algo ligado à infância já que as cartilhas têm ligação com esta fase da vida e do aprendizado, o que remonta através da infância à inocência e à ausência de estratificação em classes, o que, contudo, é irrealizável. (“Aqui, como em tudo, cada coisa em seu lugar. Pastores e são-bernardos nos livros de infância, cães-polícias num manual de linchamento”).
Como se vê, há nítido tratamento por parte do autor sobre a questão das lutas de classes. Permeia o texto a crítica, diga-se mordaz, do comportamento humano do mundo pós Revolução Industrial, de maneira geral, e a colocação dessa crítica e desse comportamento num ambiente local temperado pelo misterioso caso das mortes de Domingos e Maria das Mercês acaba se universalizando – contrariando a singularidade dessa história tão particular.



