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Que a luz do novo ano cegue o o ódio no olhar!
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Escrever é doispontos
Escrever é a esperança na caixa de Pandora.
Tornar entidade o trabalho neural.
Intervalo entre inspiração e expiração.
Solidão.
Cárcere. E contrário. Cicatriz.
Travessia. Só.
Desliberdade [PONTO] Liberdade [PONTO]
Riscafaca à porta do templo
"É isso que eu 'tou fazendo, dah!" "Que diabos!?" "Raios o partam (!) se não é isso!" "Bem lá! (Ou cá.)" "Calar!" "Ali no olho do furacão!" "Ah! o tal diabo no meio do redemoinho?" "De quê que tu 'tá falando?" "..." "Concordo." "?" "...!..." ":" ":"
Briga. Guerra. Caos. Nada.
Reticência. Dois pontos. Reticência.
Travessia. Vau. Beco. Túnel.
Escrever é doispontos
Leonel Teles
(Publicado no blog Em Torno da Escritura. Link direto para o texto, aqui.)
Tornar entidade o trabalho neural.
Intervalo entre inspiração e expiração.
Solidão.
Cárcere. E contrário. Cicatriz.
Travessia. Só.
Desliberdade [PONTO] Liberdade [PONTO]
Riscafaca à porta do templo
"É isso que eu 'tou fazendo, dah!" "Que diabos!?" "Raios o partam (!) se não é isso!" "Bem lá! (Ou cá.)" "Calar!" "Ali no olho do furacão!" "Ah! o tal diabo no meio do redemoinho?" "De quê que tu 'tá falando?" "..." "Concordo." "?" "...!..." ":" ":"
Briga. Guerra. Caos. Nada.
Reticência. Dois pontos. Reticência.
Travessia. Vau. Beco. Túnel.
Escrever é doispontos
Leonel Teles
(Publicado no blog Em Torno da Escritura. Link direto para o texto, aqui.)
sábado, 3 de abril de 2010
Ensaio sobre "Retrato de Cavalo", de Guimarães Rosa
Ensaio apresentado (por outrem – fui ghost writer) na disciplina Literatura Brasileira IV, do Curso de Letras da UFC, ministrada pelo professor Dr. Cid Ottoni Bylaardt no período 2009.2.


UM RETRATO É UM RETRATO
Leonel Teles
Um retrato deveria apenas registrar na forma de uma imagem uma outra imagem, fazendo com que se perpetuasse assim um momento qualquer e não mais que visual. Entretanto, estranho é que se diga que um retrato seja uma “outra imagem”. De fato parece um contrassenso, mas, também de fato, não o é. Como explicar esse nonsense? O conto de Guimarães Rosa não nos diz, mas, ao contrário, amplia a questão; e o retrato ao qual o título se refere deixa de ser um simples objeto material e passa a adquirir características sobrenaturais, como acredita o personagem Bio: fotografias são agouros.
O retrato do caso em questão parece estabelecer um elo entre quatro personagens: Bio, Iô Wi, a namorada deste e o cavalo, que deve ser considerado um personagem. Tal elo, que foi estabelecido em um momento anterior ao início da narrativa como foi escrita e parece se desfazer ao longo do texto, mas permanece ao final, não é apenas um elemento em comum, mas uma representação simbólica daquilo que os personagens têm em comum.
Consideremos os protagonistas Bio e Iô Wi, de maneira a demonstrar que eles são aparentemente duas representações de uma única pessoa (talvez ideia). A começar por seus nomes: Williãozinho, uma forma aportuguesada de William (este sendo provavelmente a forma correta de seu nome), e Bio, um possível apelido para outro nome, mas que pronunciado assim é foneticamente idêntico à forma abreviada em inglês do nome William: Bill. Eis a primeira semelhança percebida entre eles, uma semelhança de identidade. Em seguida os, digamos, “temas” que compõem o retrato: o cavalo de Bio e a namorada de Iô Wi, metades do todo (o retrato), cujas ações estão diretamente ligadas aos destinos de seus pares.
Podemos dizer que Bio está para seu corcel assim como Iô Wi está para a moça, e que esta está para o animal assim como os protagonistas um para o outro. Há uma espécie de amálgama correlato e às vezes aparentemente simbiótico, cujo centro gravitacional é o retrato. É a feitura deste que parece selar os destinos dos quatro, o que em nenhum momento é afirmado ou confirmado no texto – razão de mistério, que rodeia a imagem.
Não obstante, é digno de nota lembrar de O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, onde a perdição do protagonista está em seu próprio retrato, ou seja, em si mesmo. De acordo com Bio, um retrato é “pior que mau-olhado”, é “feito alguma coisa houvessem tomado” da realidade “subtraindo-lhe uma virtude”. Iô Wi, contudo, pensa diferente, não acredita nessas superstições. Seu vínculo com a fotografia está na presença de sua futura esposa, mas essa presença é enganosa, pois afinal, está ali apenas um resultado de um processo físico e químico, quase nada artesanal, se desconsiderarmos a moldura pomposa. Enganosa também porque existe a promessa, representada pelo retrato, de um futuro que não se realizará, o casamento. O retrato é, portanto, ao mesmo tempo passado e futuro e, talvez por isso mesmo, não seja nem um nem outro.
O que é o retrato? Que verdade, se houver, ele traz? Há a certeza da dúvida, preço da pureza, do mistério, que em si não é certeza alguma. Concretizado para perpetuar um momento, ele se torna, como dito, outra imagem, primeiro porque é apenas um produto, um artifício, algo que refere a outro, mas não é este outro, acaba não perpetuando nada senão uma lembrança. Segundo, porque adquire qualidades próprias, passando a trazer em si o que não existia no referente. É o que confunde a cabeça de Bio. Este contempla a imagem com raiva e admiração: ali reproduzido está seu cavalo, altivo a contemplar o infinito, o qual jamais ousara montar, porém “reproduzido destarte, fornecia visão vã”, ao mesmo tempo era outro, uma visão congelada, estática e impotente, talvez nada. O que lhe insulta a verdade, a realidade, e aprisiona seu “cavalo do universo”. Ainda por cima, a figurar como coadjuvante ao lado da moça da cidade, rural pedante, namorada de Iô Wi.
Deixa, então, a busca do retrato e decide tomar, de fato, a posse do ginete – montando-o. “Ia então exercer o que até aqui delongara, por temor e afeição rodeadora”. Por que temor? Seria este temor um prenúncio de algo que estava por vir, como a morte do cavalo? Estranha morte. Quando decidira montar o animal, cavalgou fora do tempo e do espaço e a cavalgada pareceu mudar o mundo, transfigurá-lo:
Como se vê, o puro ato de cavalgar o corcel inominado transporta o cavaleiro a um ambiente edênico, tudo se lhe torna belo e agradável. Juntos eles subiam, ascendiam. Descobria ele ali sua verdade, fosse como fosse, ela era sua e estava no cavalo animal, não no de papel, vidrado, em moldura engaiolado. Bio então decide tomar e destruir o retrato, mas vê sua intenção frustrada: a noiva de sua contraparte Iô Wi não mais se casaria com ele, o deixaria, e o suntuoso quadro estava agora “removido em recatado”.
É interessante essa sequência de acontecimentos. São, de certa forma, desvelamentos de verdades. Bio descobre uma verdade quando cavalga e Iô Wi quando a moça o abandona, a moça “desinquieta”, “de fora, de cidade”, “Ingrata, ausenciada”; sofre ele uma desilusão. Considerando o misterioso poder que Bio acredita ter o retrato e a qualidade deste de funcionar como elo entre os quatro personagens mencionados, podemos acreditar que ocorre um desequilíbrio na ordem das coisas, com a perda de uma das metades do retrato (a moça). Dado isso, acontece de o cavalo repentinamente se acidentar e morrer, de maneira tão inesperada para um garanhão tão cheio de qualidades. Resta então para os dois homens o retrato, contudo agora enxergam que ele não passa de um simples significante que não consegue abarcar o significado dos seus referentes, pois não é realidade, é representação, ou falsa realidade.
“Isto se grava em retratos?”
Eles resolvem “levar o quadro, efígies de imagens, ao Seo Drães, para o salão de fidalga casa, onde reportar honra e glória”. Em tal lugar o retrato não teria sentido outro que não estético, sendo assim admirado por si mesmo.
“Retrato de cavalo” não é um conto sobre retrato de cavalo e não existe aqui a pretensão de dizer sobre o que ele trata, porém podemos interpretá-lo como uma história sobre as limitações que o estabelecimento da forma acarreta. Um retrato está preso a si mesmo, pois é uma imagem definida que pode, claro, receber outros tratamentos, o que, contudo, lhe modifica a forma. O mesmo há na escrita. O texto, depois de escrito, se fecha formalmente, perde suas infindas possibilidades formais, apesar de permitir inúmeras interpretações. Assim a escritura é como o retrato do corcel inominado e como a irradiação fóssil das estrelas, registros que nos falam do presente, do passado e do futuro.
Referência
ROSA, João Guimarães. “Retrato de cavalo” in: Tutaméia (Terceiras estórias). 4. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.
O retrato do caso em questão parece estabelecer um elo entre quatro personagens: Bio, Iô Wi, a namorada deste e o cavalo, que deve ser considerado um personagem. Tal elo, que foi estabelecido em um momento anterior ao início da narrativa como foi escrita e parece se desfazer ao longo do texto, mas permanece ao final, não é apenas um elemento em comum, mas uma representação simbólica daquilo que os personagens têm em comum.
Consideremos os protagonistas Bio e Iô Wi, de maneira a demonstrar que eles são aparentemente duas representações de uma única pessoa (talvez ideia). A começar por seus nomes: Williãozinho, uma forma aportuguesada de William (este sendo provavelmente a forma correta de seu nome), e Bio, um possível apelido para outro nome, mas que pronunciado assim é foneticamente idêntico à forma abreviada em inglês do nome William: Bill. Eis a primeira semelhança percebida entre eles, uma semelhança de identidade. Em seguida os, digamos, “temas” que compõem o retrato: o cavalo de Bio e a namorada de Iô Wi, metades do todo (o retrato), cujas ações estão diretamente ligadas aos destinos de seus pares.
Podemos dizer que Bio está para seu corcel assim como Iô Wi está para a moça, e que esta está para o animal assim como os protagonistas um para o outro. Há uma espécie de amálgama correlato e às vezes aparentemente simbiótico, cujo centro gravitacional é o retrato. É a feitura deste que parece selar os destinos dos quatro, o que em nenhum momento é afirmado ou confirmado no texto – razão de mistério, que rodeia a imagem.
Não obstante, é digno de nota lembrar de O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, onde a perdição do protagonista está em seu próprio retrato, ou seja, em si mesmo. De acordo com Bio, um retrato é “pior que mau-olhado”, é “feito alguma coisa houvessem tomado” da realidade “subtraindo-lhe uma virtude”. Iô Wi, contudo, pensa diferente, não acredita nessas superstições. Seu vínculo com a fotografia está na presença de sua futura esposa, mas essa presença é enganosa, pois afinal, está ali apenas um resultado de um processo físico e químico, quase nada artesanal, se desconsiderarmos a moldura pomposa. Enganosa também porque existe a promessa, representada pelo retrato, de um futuro que não se realizará, o casamento. O retrato é, portanto, ao mesmo tempo passado e futuro e, talvez por isso mesmo, não seja nem um nem outro.
O que é o retrato? Que verdade, se houver, ele traz? Há a certeza da dúvida, preço da pureza, do mistério, que em si não é certeza alguma. Concretizado para perpetuar um momento, ele se torna, como dito, outra imagem, primeiro porque é apenas um produto, um artifício, algo que refere a outro, mas não é este outro, acaba não perpetuando nada senão uma lembrança. Segundo, porque adquire qualidades próprias, passando a trazer em si o que não existia no referente. É o que confunde a cabeça de Bio. Este contempla a imagem com raiva e admiração: ali reproduzido está seu cavalo, altivo a contemplar o infinito, o qual jamais ousara montar, porém “reproduzido destarte, fornecia visão vã”, ao mesmo tempo era outro, uma visão congelada, estática e impotente, talvez nada. O que lhe insulta a verdade, a realidade, e aprisiona seu “cavalo do universo”. Ainda por cima, a figurar como coadjuvante ao lado da moça da cidade, rural pedante, namorada de Iô Wi.
Deixa, então, a busca do retrato e decide tomar, de fato, a posse do ginete – montando-o. “Ia então exercer o que até aqui delongara, por temor e afeição rodeadora”. Por que temor? Seria este temor um prenúncio de algo que estava por vir, como a morte do cavalo? Estranha morte. Quando decidira montar o animal, cavalgou fora do tempo e do espaço e a cavalgada pareceu mudar o mundo, transfigurá-lo:
Tanto cavalgou, rumo a enfim nenhum, nem era passeio, mas um ato, sem esporte nem espairecer. Senseava-o, corpo em corpo, macio e puro assim nem o aipim mais enxuto, trotandante ou à bralha. Seguia o sol, no chão as sobreluzidinhas flores, do amarelo que cria caminhos novos. Estrada nua limpa com águas lisices – tudo o que nele alegre, arrebatado de gosto – e o azul que continua tudo. Eles subiam. (p. 132)
Como se vê, o puro ato de cavalgar o corcel inominado transporta o cavaleiro a um ambiente edênico, tudo se lhe torna belo e agradável. Juntos eles subiam, ascendiam. Descobria ele ali sua verdade, fosse como fosse, ela era sua e estava no cavalo animal, não no de papel, vidrado, em moldura engaiolado. Bio então decide tomar e destruir o retrato, mas vê sua intenção frustrada: a noiva de sua contraparte Iô Wi não mais se casaria com ele, o deixaria, e o suntuoso quadro estava agora “removido em recatado”.
É interessante essa sequência de acontecimentos. São, de certa forma, desvelamentos de verdades. Bio descobre uma verdade quando cavalga e Iô Wi quando a moça o abandona, a moça “desinquieta”, “de fora, de cidade”, “Ingrata, ausenciada”; sofre ele uma desilusão. Considerando o misterioso poder que Bio acredita ter o retrato e a qualidade deste de funcionar como elo entre os quatro personagens mencionados, podemos acreditar que ocorre um desequilíbrio na ordem das coisas, com a perda de uma das metades do retrato (a moça). Dado isso, acontece de o cavalo repentinamente se acidentar e morrer, de maneira tão inesperada para um garanhão tão cheio de qualidades. Resta então para os dois homens o retrato, contudo agora enxergam que ele não passa de um simples significante que não consegue abarcar o significado dos seus referentes, pois não é realidade, é representação, ou falsa realidade.
Apesar bem de belo, perfeito em forma de semelhanças, cavalo tão cidadão, aquilo não podia satisfazer o espírito, como a riqueza esfria amores, permanecido em estado de bicho. Nem era o que mudado, depois, com ronquidos de padecer, tremente o inteiro pêlo, dele junto, como o dia de ontem que não passou, sem socorro possível. (p. 133)
“Isto se grava em retratos?”
Eles resolvem “levar o quadro, efígies de imagens, ao Seo Drães, para o salão de fidalga casa, onde reportar honra e glória”. Em tal lugar o retrato não teria sentido outro que não estético, sendo assim admirado por si mesmo.
“Retrato de cavalo” não é um conto sobre retrato de cavalo e não existe aqui a pretensão de dizer sobre o que ele trata, porém podemos interpretá-lo como uma história sobre as limitações que o estabelecimento da forma acarreta. Um retrato está preso a si mesmo, pois é uma imagem definida que pode, claro, receber outros tratamentos, o que, contudo, lhe modifica a forma. O mesmo há na escrita. O texto, depois de escrito, se fecha formalmente, perde suas infindas possibilidades formais, apesar de permitir inúmeras interpretações. Assim a escritura é como o retrato do corcel inominado e como a irradiação fóssil das estrelas, registros que nos falam do presente, do passado e do futuro.
Referência
ROSA, João Guimarães. “Retrato de cavalo” in: Tutaméia (Terceiras estórias). 4. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.
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