Segue-se meu rascunho feito para um ensaio sobre o conto "O homem que sabia javanês", de Lima Barreto, proposto pelo professor Cid Ottoni Bylaardt aos alunos da disciplina Literatura Brasileira III da UFC no período de 2008.2.

(DES)ORDEM NO CONTO "O HOMEM QUE SABIA JAVANÊS"
- Leonel Teles -
- Leonel Teles -
Tomando as palavras da proposta da atividade, o presente ensaio objetiva selecionar na narrativa “elementos de ordem e desordem, relacionando-os à construção da escrita do conto, chegando enfim a uma concepção de escrita subjacente à narrativa”. Não obstante, aqui será realizada uma abordagem progressiva do conto em questão, de forma a acompanharmos a história do início ao fim.
Iniciemos esta análise falando um pouco sobre a ambientação da história. Castelo, o protagonista e narrador, está em uma confeitaria na companhia de seu amigo Castro. Os dois, como se pode dizer, jogam conversa fora enquanto tomam cerveja. É nessa situação descontraída e informal que Castelo conta para Castro “as partidas que havia pregado às convicções e às respeitabilidades, para poder viver”. Já aqui, no primeiro parágrafo do conto, percebemos a primeira ação da desordem que se mostrará em todo o texto. Se atentarmos para certo tom de humor presente em sua fala, nosso protagonista dá uma amostra de suas concepções, que parecem (ou parecerão mais adiante) carregar em si a desordem como ordem. Sim, por que não? Tratemos disso mais tarde.
No diálogo que precede a revelação do “mérito” que lhe rendeu o título de cônsul, Castelo, no tom sarcástico que se mostra característico seu, fala ao seu ouvinte e a nós como, mesmo no “Brasil imbecil e burocrático”, lhe fora possível “arranjar belas páginas de vida”, fato que provoca a admiração de Castro. Ao utilizar-se da expressão “belas páginas de vida” para referir-se às aventuras que vivera e vive, Castelo deixa-se revelar como seduzido pelo modo como essas vivências lhe ocorrem, porque lhe agrada ser assim e, como confessa, o modo de vida convencional o aborrece. Ora, haveria mesmo de ser assim, se a vida lhe sorrisse sempre, o que não é verdade. Mas, sua última “partida” lhe proporcionara tanto sucesso que agora acreditava que as belas páginas de vida eram como páginas que suas próprias mãos passavam, quando na verdade eram páginas ao vento.
Castelo, então, conta para seu amigo como havia se tornado cônsul e como isso não fora propositado. Havia ele lido em um anúncio de jornal uma proposta de emprego para professores de javanês que logo atraiu sua atenção. Ora, era atraente porque ele considerava a falta de concorrentes. Então, com sincero afinco ele se põe a aprender um pouco o idioma, chegando a afirmar com ironia que todo esse saber fora lastrado com vinte palavras do léxico.
Mais adiante, após ter se candidatado ao cargo de professor da língua, ele é chamado para falar com o barão de Jacuecanga, seu futuro aluno. Note-se como Castelo narra sua chegada à casa do barão: “Cheguei suadíssimo; e, com maternal carinho, as anosas mangueiras [...] me receberam, me acolheram e me reconfortaram. Em toda a minha vida, fora o único momento em que cheguei a sentir a simpatia da natureza...”. Pode-se dizer que ele se julga sofredor e como esse julgamento é tão facilmente atingido, não só por ele: isso parece ser uma propensão natural das pessoas. No entanto, mesmo demonstrando-se inconsciente disso, ele é sincero em julgar-se dessa maneira, e essa sinceridade em sua fala de certo é capaz de seduzir seu ouvinte ou mesmo nós, leitores.
Seguindo-se a isso, Castelo nos descreve a casa e o jardim. Sobre a casa velha e mal tratada ele diz ter pensado “que nesse mau tratamento havia mais desleixo e cansaço de viver que mesmo pobreza”; e sobre o jardim ele afirma ter visto “a pujança vingativa com que a tiririca e o carrapicho tinham expulsado os tinhorões e as begônias”. Interessantíssimas colocações, principalmente as expressões cansaço de viver e pujança vingativa: esta nos faz ver o jardim como o campo de uma batalha entre as belas flores e o mato desagradável no qual este último, favorecido pelo desleixo do barão em cuidar que tratem do seu jardim, agora sobrepuje, derrote suas inimigas preferíveis pelo bom gosto, pela beleza, pela vida, e também símbolos de tudo isso e da prosperidade, agora decadente na família do barão; e o “cansaço de viver” corrobora ainda mais o que foi dito agora, sem falar da superstição que acompanha o misterioso livro em javanês, do qual falaremos mais adiante.
Também é interessante mencionar a passagem na qual Castelo exprime a impressão que teve de um jarro de porcelana da casa. Nesse trecho nota-se que há um momento de certo lirismo por parte do personagem, que ao que parece é um homem sincero – pelo menos para consigo mesmo, e até aonde pode – e não trama sua própria sorte. A desordem parece fluir na própria ordem de sua vida.
Logo após essa passagem temos o encontro entre Castelo e o Dr. Manoel Feliciano Soares Albernaz, o barão de Jacuecanga, e nesse encontro ocorre um confronto entre ordem e desordem. “[...] foi cheio de respeito que o vi chegar”, diz Castelo sobre o velho barão, “Tive vontade de ir-me embora”, confessa. Algo de ético e de bom caráter vem à tona em sua mente e ele hesita em seu plano, mas sua convicção em conseguir o emprego é mais poderosa e com ela ele segue.
Depois disso, segue-se uma entrevista de emprego e Castelo fica sabendo a respeito do livro, herança de família que deverá trazer muita sorte ao possuidor que o ler. Porém, o barão está em um momento difícil de sua vida, “perdera todos os filhos, sobrinhos, só lhe restando uma filha casada, cuja prole, porém, estava reduzida a um filho, débil de corpo e de saúde frágil e oscilante”. Teria, essa desgraça, acontecido devido ao desinteresse do velho pelo livro? Essa é uma pergunta que não se pode responder, mas colabora para o encantamento que o livro exerce, assim como sua atemporalidade: por falta de folha de rosto e, por conseguinte, da data de impressão o livro ganha um aspecto místico, como se contesse verdades primordiais ou transcendentais; some-se a tudo isso o estranhamento do idioma. Também não se pode negar que o desconhecido atrai (sem falar que atemoriza). Ora, não é o desconhecido a razão da crença de inúmeras pessoas no mundo? O fato é que o livro é o “talismã da família”, e Castelo “ensinaria” o velho barão a entender seu talismã.
Entrementes, nosso protagonista diz cinicamente que esteve “ainda folheando o cartapácio, à laia de quem sabe magistralmente aquela espécie de vasconço”. Seu cinismo cru é aceitável, afinal é para seu amigo Castro que ele conta a história. Porém, também se pode notar certo humor em sua fala, um humor cínico e natural, que reflete mais um aspecto da desordem na sua personalidade. Outra passagem que também reflete um pouco isso é a seguinte: “Dentro em pouco, dava a minha primeira lição, mas o velho não foi tão diligente quanto eu”. A última oração traz a palavra diligente, cheia de ironia; é como se ele dissesse que fingia ensinar mas o velho, por outro lado, nem sequer fingia aprender. O barão, já enfadado, propõe a Castelo que este traduza o livro. Para isso o professor de javanês inventa “histórias bem tôlas”, as quais o barão escuta “estático, como se estivesse a ouvir palavras de um anjo”. O velho, totalmente seduzido pelo entendimento do seu talismã herdado, é traído tanto pelo seu falso mestre quanto por sua própria crença no fado prometedor da bem-aventurança. O plano de Castelo segue perfeito – e atentemos para o fato de que até aqui seu plano era apenas ser remunerado por “ensinar” javanês, ingressar na diplomacia não fazia parte. Todavia, ao que parece a sorte está do lado dele: o barão acaba por ganhar uma herança e atribui o fato ao javanês. Com isso o próprio Castelo é seduzido a acreditar por um momento no poder do livro “encantado”, como afirma: “eu estiva quase a crê-lo também”. Atingindo tanto sucesso em sua “partida”, ele vai “perdendo os remorsos”; talvez pelo sucesso, ou talvez, numa outra interpretação, por compreender-se como bem feitor da constituição emocional do velho barão. Quão estranhamente interessante se fosse assim, com Castelo sendo autocompreensivo e mesmo heróico, mas o fato é que ele sabia o que estava fazendo, ele sabia de sua própria “ética” pessoal, fora da ordem e avesso dela. Não obstante, prossigamos.
Por influência do barão, Castelo é enviado à Secretaria dos Estrangeiros, onde acaba tornado-se adido ao ministério. Foi a primeira provação pela qual sua mentira passou: estar numa casa de diplomatas correndo o risco de encontrar quem realmente conhecesse o idioma malaio. Mas, como ele diz orgulhoso, “foi um sucesso”. Tanto que, tornando-se adido viaja para o exterior, não sem antes tentar construir um maior conhecimento das línguas maléo-polinésicas, o que não consegue. “Bem jantado, bem vestido, bem dormido, não tinha energia necessária para fazer entrar na cachola aquelas coisas esquisitas”, confessa. Ora, agora que estava bem de vida não tinha ou precisava do vigor de antes, era, com as devidas proporções, como um Jéca Tatú do “Urupês”, de Monteiro Lobato – “O vigor das raças humanas está na razão direta da hostilidade ambiente”, escreveu este no conto citado.
É interessante mencionar também um trecho no qual Castelo narra: “A polícia prendeu um sujeito, um marujo, um tipo bronzeado que só falava uma língua esquisita. Chamaram diversos interpretes, ninguém o entendia. Fui também chamado com todos os respeitos que a minha sabedoria merecia, naturalmente.” A gabolice irônica que ele demonstra na última frase é patente da ordem do seu comportamento, que é a desordem, e ele desdenha a ignorância dos outros frente a sua grande mentira. Porém quando descobre que “o tal marujo era javanês”, vê o risco que correu, mas a sorte mais uma vez se mostra do seu lado, pois quando ele resolve ir ter com o marujo este “já estava sôlto, graças à intervenção do cônsul holandês”.
Viajando para a Europa, Castelo não passa por dificuldades, chegando até a ser festejado. Pode-se imaginar que todo o seu sucesso tenha ligação com a leitura, mesmo que não entendida, do livro misterioso do velho barão de Jacuecanga, afinal tudo começou com a proposta de emprego, mas o vislumbre da oportunidade de sair da miséria tinha sido seu, viera da sua competência pessoal, fora da ordem comum e ética, ou, seja, tendo a desordem como ordem. E agora ele estava confiante do seu poder de enganação e também seduzido pelo sucesso de sua “partida”, acreditando poder se tornar até mesmo um “bacteriologista eminente”.
Sem mais, por ser o conto em primeira pessoa, ou seja, a fala da personagem, a concepção de escrita subjacente à narrativa é a mesma concepção que subjaz Castelo: a (des)ordem – ou seria melhor “des(ordem)”?




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