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sábado, 20 de junho de 2009

Pequena análise de um trechinho do livro Gaibéus

Trabalho apresentado ao professor José Leite Jr. (Literatura Portuguêsa IV, 2009.1)
Seguindo a sugestão do professor, resolvi postar este texto aqui. Este texto é anterior ao texto sobre O Delfim.
Pequena análise do excerto de GAIBÉUS presente em A literatura portuguesa através dos textos, de Massaud Moisés.

“As palavras não naufragam.”

Antes de tudo, deixo claro o meu desconhecimento da obra integral da qual o trecho presente no livro de Massaud Moisés foi extraído. Assim sendo, ponho-me atento apenas ao excerto em questão.

O texto de Alves Redol apresenta muitos recursos estilísticos, dos quais o mais facilmente observável é a metáfora. Entretanto, como o professor Leite Jr. bem analisou, essas metáforas não se estabelecem apenas no nível sintático-semântico, mas também no nível fonético. Mas o que aqui tentarei observar é, em meio a um banquete de metáforas de fogo e afins, a relação da água, ecoante dos gritos dos carregadores de água, com a intenção humanitária da obra.
“– Auga!... Auga!... – dizem os rapazes aguadeiros”. Nesse momento do texto pode-se dizer que a água adquire paradoxalmente uma expressividade potencializadora do sofrimento. Em meio àquela espécie de inferno, como podemos identificar que seja, através das metáforas que buscam por vezes o elemento fogo, o calor etc.; através da imagem dos capatazes a forçar e oprimir os trabalhadores (que, com o perdão da ironia, não são escravos apenas porque a escravidão foi abolida), fazendo as vezes de diabos; a ligação da ceifa com a morte, por vezes representada a empunhar uma foice, em uma interessantíssima metáfora onde o camponês sofredor ceifa para sobreviver mas a morte ceifadora da vida, é cada vez mais eminente. Em meio a tudo isso parece que a alegria provocável pelo anúncio da água acaba, na verdade, ampliando a severa dureza da realidade.
Quando do primeiro oferecimento de água pelos aguadeiros, o narrador nos diz que “Os seus brados parecem vogar sobre o rancho e não se dissolvem. Ficam a boiar na massa espessa da lava de fogo e angústia que cobre as searas. As palavras não naufragam.” Essa permanência do brado (“– Auga!... Auga!...”) é mais (ou menos) que a esperança de alívio, mesmo que momentâneo: é também angústia frente a este alívio momentâneo. Note-se o verbo “vogar”. O dicionário dirá que, entre suas acepções, além do sentido imediato de navegação, flutuação, há também o de divulgar, estar em moda, influenciar e estar em vigor. Ele faz com que a água, ou melhor, tudo que ela traz à tona (subordinação, consciência de uma vida miserável...) tornem-se, naquele universo, uma espécie de lei – que justifica o roubo (“Só agora compreendem as suas aventuras de ladrão”). Essa “lei” está a vigorar naquele ambiente, influenciando-o. Mas se a água é a lei, descobrem-na fraca: é “choca e morna”, mais uma vítima do sol.
Falando da palavra “água”, é sabido que nas artes e nas culturas ela é muito utilizada como símbolo de pureza, adaptabilidade, força, sabedoria, fertilização etc. Contudo, não no caso em questão. A adaptabilidade que se vê é a forma vocabular: o autor prefere registrar a fala da personagem da maneira como ela soa realmente, enriquecendo a autenticidade humana. Dá-se no “– Auga!... Auga!...” o estribilho mencionado por Massaud Moisés, um estribilho que lemos por três vezes no texto, mas que parece ecoar até o fim, e de uma maneira inda mais angustiante: as palavras não se ouvem mais. Porém, elas permanecem, sob uma forma indefinida: apenas algo que está presente sem que se perceba e que, ainda assim, exerce certa disposição nos ceifeiros (e nos aguadeiros e nas mulheres) e mesmo nos leitores.
Os brados que parecem “gritos de socorro no meio do incêndio” são apenas palavras. Mas, palavras que não naufragam. Os gritos despertam nos trabalhadores espécie de consciência de sua condição, o que causa desilusão, desespero. Porém, a mesma água é um suporte de sobrevivência. Além de tudo, ecoa a proposta extrínseca do autor. “Gritos de socorro no meio do incêndio” (grifo meu).

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