Uma reflexão sobre o excerto de AUTO DOS DANADOS, de Lobo Antunes, presente no livro Literatura portuguesa através dos textos, de Massaud Moisés
“noite no peitoril da janela como um gato que dorme”
No curto fragmento do livro Auto dos Danados podemos observar alguns pontos interessantes. A narrativa é feita pela personagem Ana e algo que chama para si muita atenção é o modo como essa narrativa se desenvolve. Seu fluxo parece refletir a desordem da personagem, misturando os fatos do presente com os do passado e mostrando as interpretações que Ana faz do mundo.
Vejamos o primeiro parágrafo do excerto. Nele, podemos levar em consideração inicialmente que ocorre uma espécie de auto desvelamento das personagens. Elas, ao que parece, quando se vêem instaladas no quarto do hotel permitem-se um relaxamento (ao menos comportamental), um despojamento como nos sugere o ato de retirar a maquiagem (talvez um símbolo para uma persona social) ou o homem que se deita para descansar, descalçando-se e despindo-se. Notemos que é apenas depois desse “despojamento” que a narradora explica como chegaram até ali e também é somente depois dele que ela, como diz, “repara no odor de gado morto dos lençóis”. Aí se faz visível a primeira intertextualidade com o Naturalismo, e de forma extremada: mais do que comparar o homem ao animal, pode-se dizer que o primeiro, na visão de Ana, sofre uma metamorfose e, mais ainda, torna-se um animal já morto. Além disso, é numa voz em primeira pessoa que a narração é feita, não numa terceira pessoa onisciente, contrariamente ao mais comum no Naturalismo, não aproxima essa comparação a algo científico. É interessante o seguinte trecho: “Tínhamos chegado uma fora antes a Évora e principiado a apodrecer na primeira pensão que encontramos”, nele nossa narradora se inclui na comparação o que é de certa forma inusitado, porém ocorre outras vezes no texto.
Em parte, a desordem da personagem Ana se deve, aparentemente, às conseqüências do cenário político-social do país. No estrangeiro (Brasil) ela passou a ter uma nova compreensão de Portugal, como num caso de um quadro de grandes proporções onde é preciso distanciar-se para conhecer o todo. Sofre, então, com o Portugal, por sua vez desvelado. Podemos perceber um quê de surrealismo no seu contar. Isso é nítido quando ela, mais do que metaforizar, parece ver realmente animais “finados [...] putrefactos” no lugar do seu marido. Faz lembrar A Metamorfose, de Kafka, mas aqui sabemos que se trata de metáforas. Entretanto, a narrativa é feita de tal modo que às vezes é possível que nos perguntemos se a metamorfose do marido ocorreu. Uma das passagens mais interessantes está no último parágrafo, que talvez sintetize e melhor exemplifique essa desordem (de personagem e narrativa) que flerta com o surreal, o grotesco, a loucura – diria que até mesmo com o fantástico.
Nesse parágrafo, Ana descreve seu marido na cama comparando-o a um novilho morto que muitos anos antes, na companhia de sua mãe e sua prima, vira às margens do rio Guadiana. Porém, fazendo essa descrição, ela parece se transportar no tempo de volta àquele momento. Interessante é como isso ocorre. Imediatamente após o momento em que ela diz que “Lagartos e moscas entravam-lhe e saíam-lhe do corpo” (referindo-se ao marido, ao novilho, ou aos dois, já que em sua visão são um só) o curso do Guadiana parece ser transposto para Évora (ou seria o contrário?) de forma que a descrição transforma-se numa confusão, ainda que harmônica, onde o passado é posto no presente e as fronteiras entre realidade e imaginação se dissipam: agora ela está ao lado de sua mão e sua prima a ver a carniça do animal. A última frase é a mais estranha: “Um homem passou a vinte metros de nós, com uma cesta ao ombro”. Com a continuação do texto talvez pudéssemos entendê-la. No entanto, o que se quer frisar é a quebra da lógica, ou melhor, aqui a lógica não é cartesiana, mas própria de Ana a narradora.
É interessante também que a imagem do animal putrefato provoca em Ana um retorno ao passado, o que, de certa forma, é um paradoxo, já que a lembrança da infância pode ser um refúgio mental. Contudo, podemos ver com isso que ao longo do texto elementos opostos estão sempre se encontrando: o despojamento mencionado traz uma interpretação negativa das coisas, a lucidez faz ver a verdadeira condição nacional, a imagem do marido reduzido a um animal morto a faz retornar ao passado banhado pelas águas do Guadiana, um passado saudoso como o texto indica – e mesmo esse saudosismo parece se contradizer.
Como afirma o professor Cid Ottoni Bylaardt no artigo Quem tem medo do Lobo Antunes?, o “verbo supor talvez seja o que melhor define a relação entre o leitor e a matéria lida: nada é dito diretamente, as elocuções são fragmentárias, ninguém tem certeza de coisa alguma”. Tratar, portanto, de um simples extrato amplia ainda mais a força desse “supor”. Assim, o que chamamos de desordem permeia todos os níveis do texto: psicológico, social, narrativo etc.




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